Conheça David Allen, um tatuador e pintor conhecido pelo seu trabalho a tatuar sobre as cicatrizes deixadas pelas mastectomias de sobreviventes de cancro da mama. Sentámo-nos para falar sobre a sua parceria com o project:OM.
POR QUE MOTIVO QUIS TORNAR-SE TATUADOR?
Gosto do aspecto individual, em que posso passar tempo com um cliente, sejam duas horas ou cinco. E posso entregar uma arte que é feita à medida da pessoa.
O QUE O LEVOU A TATUAR SOBRE CICATRIZES DE MASTECTOMIA?
Tive uma cliente em Nova Iorque, que tinha feito uma mastectomia unilateral – era uma reconstrução. Quis que eu tatuasse por cima, e eu hesitei porque eu próprio tenho cicatrizes. Fiz uma cirurgia a peito aberto no esterno, por isso sei que a pele é diferente e que é preciso ter cuidado. Mas ela continuou a insistir, então marcámos tudo e eu fui até lá para a conhecer.
Foi transformador perceber que estava a fazer o meu trabalho, mas também a ajudar literalmente alguém a sarar. A sensação foi avassaladora. Naquele momento, a minha formação em design e ilustração juntou-se toda no esforço de cobrir estas cicatrizes. Soube que tinha de continuar a fazê-lo.

O QUE INSPIRA OS SEUS DESENHOS?
Ao cobrir estas cicatrizes, a única coisa que realmente funciona é a imagética botânica. Se estas mulheres tiverem de ser operadas de novo e, depois, a pele não ficar perfeitamente alinhada, tudo bem, porque podemos acrescentar uma folha ou uma pétala, e é fácil de corrigir. É uma imagética orgânica com temas básicos de vida e crescimento. Permite a estas mulheres retomar o controlo com algo vivo.
DESCREVA O PROCESSO DE TATUAGEM COM ESTAS MULHERES.
As peças são surpreendentemente grandes e no peito, o que é doloroso, mas acho que as mulheres aguentam muito melhor a dor do que os homens. Devido à cirurgia ao cancro da mama, algumas das terminações nervosas estão mortas. Por isso, metade das vezes elas não sentem a dor, e na outra metade sentem - e é 8/10 na escala da dor. Por isso, é minha função reparar nisso e fazer pausas.

QUAL É A PARTE MAIS DIFÍCIL DE TUDO ISTO?
Pode desgastar-te emocionalmente e estou a aprender a lidar com isso. Na verdade, andei eu própria a fazer terapia para aprender a ter as competências de uma terapeuta. Se alguém estiver a falar contigo sobre a morte durante dois dias seguidos, o que fazes com isso e como é que não trazes isso para casa? Penso que, quanto mais forte eu ficar emocionalmente, mais conseguirei assumir.
QUAL É A PARTE MAIS GRATIFICANTE?
Ser capaz de fazer parte do processo deles. Estas mulheres enfrentaram a morte, perderam o controlo e sentiram necessidade de simplesmente estar sozinhas. Tenho de assimilar tudo isso. É uma linha temporal longa e, por alguma razão, tenho a oportunidade de entrar nas vidas delas por um dia, dar-lhes a minha atenção total e estar presente. Ouço a sua história e crio uma imagem personalizada às suas cicatrizes e ao seu processo de cura. Torno-me num veículo para impulsionar a mudança ou devolver o controlo.

CRIOSTE A OBRA DE ARTE PARA O NOSSO PROJECTO DE EDIÇÃO LIMITADA: TAPETE DE IOGA E TOALHA OM. COMO FOI ESSE PROCESSO?
Na verdade, desta vez fiz algo diferente e fui primeiro a uma florista comprar flores. Peguei nas flores, arranjei-as e fotografei-as. E, a partir dessas fotografias, desenhei-as, tal como faria com uma cliente. Pintei uma silhueta da forma de uma mulher e depois levei o desenho para o corpo, como faço com as tatuagens.
Saiba mais sobre o David em allentattoo.com.
